Divulgado há alguns anos, o Spot, cão-robô desenvolvido pela Boston Dynamics, voltou às manchetes nos últimos tempos. Uma das novidades mais peculiares da WebSummit, em Portugal, o dispositivo também deu as caras nos Estados Unidos, mas de uma maneira um pouco mais efetiva. 

Se em seu lançamento o cachorrinho eletrônico dançava e fazia coisas de pet, desta vez a tarefa teve um ar mais grave. A polícia de Massachusetts confirmou ao Washington Post que enviou o robô para ações que envolviam a presença de explosivos ou áreas com possíveis suspeitos. Impossível não lembrar do filme K-9, o clássico da Sessão da Tarde em que um cão fazia as vezes de policial (ou “tira”, para ficarmos dentro da terminologia usada nas telinhas).

A corporação se tornou a primeira agência policial do país a usar o Spot em atividades reais, segundo os registros obtidos pela União Americana de Liberdade Civil, compartilhados com o jornal. Consta que o robô, que custa 70 libras, foi alugado ao esquadrão antibombas por 90 dias, entre agosto e novembro. A ideia era avaliar suas capacidades em atividades de aplicação da lei, “particularmente a inspeção remota de ambientes potencialmente perigosos que podem conter suspeitos e munições”.

A discussão gira em torno da transparência sobre o uso de dispositivos eletrônicos de monitoramento das ruas. A diretora do programa Technology for Liberty de Massachusetts, Kade Crockford, divulgou comunicado alertando que a comunidade sabe pouco sobre os sistemas robóticos que estão sendo testados ou utilizados pelo Estado.

“Com muita frequência, a implantação dessas tecnologias acontece mais rapidamente do que nossos sistemas sociais, políticos ou legais reagem”, diz o comunicado. A diretora defende regulamentações estaduais para proteger as liberdades e os direitos civis, além da justiça racial na era da inteligência artificial. 

A preocupação é tanta que especialistas já pediram, até mesmo, a criação de uma agência que regulamentasse a aplicação da robótica, alegando falta de conhecimento especializado entre os responsáveis pela legislação e implementação de políticas públicas. 

O professor de Direito da Universidade de Washington Ryan Calo dá aulas sobre leis e políticas que envolvem robótica. “A invenção do trem exigiu mudanças maciças na infraestrutura nacional. Em resposta, formamos a Administração Federal de Ferrovias”, observa.

Este não é o único robô desenvolvido pela Boston Dynamics, que em 2017 foi comprada pelo SoftBank da Alphabet, controlada pelo Google. A empresa conta com outras invenções, como o Wildcat e o BigDog, capazes de transportar cargas pesadas e andar a cerca de 32 km/h. Já o Atlas, robô humanóide, é o produto mais reconhecido até hoje. Spot, no entanto, é o único produto comercial até agora. 

Seguro por não envolver a presença de um humano na linha de frente de algumas operações, mas perigoso por ter a capacidade de captar e armazenar informações que podem ser de cunho pessoal. Além disso, a capacidade de tomar decisões pode esbarrar no limite que o bom senso de um humano poderia contornar. São questões que a sociedade precisa acompanhar de perto e debater incansavelmente nos próximos anos. 

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