O trabalho intelectual, como é o caso dos programadores e das programadoras, traz uma série de peculiaridades que podem ser, ao mesmo tempo, positivas e negativas. Trabalhar em qualquer lugar, ficar sozinho, concentrado, permanecer por horas na busca de uma solução, mesmo que atravesse a madrugada, alimentar-se com o que for mais rápido. Esse contexto pode levar uma pessoa a um cenário de estresse e isolamento.

O famoso “passar pizza por debaixo da porta” até teve seu glamour, mas hoje se sabe que não faz sentido. A maioria das empresas incentivam as pessoas a se comunicar, criam programas e grupos por área de interesse, estimulando a convivência e a vida off-line.

Em artigo publicado em seu site, Fernando Ike fala sobre o assunto, apresenta números importantes e conta sua experiência pessoal. Ele lembra que os sintomas mais comuns, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, são perda de energia, mudanças no apetite ou no sono, ansiedade, perda de concentração, indecisão, inquietude, sensação de culpa, desesperança ou baixa autoestima, pensamentos de suicídio ou de causar dano a si mesmo.

Um antídoto virtual

Pensando em tudo isso, a desenvolvedora Aline Bezzoco desenvolveu o aplicativo “Tá tudo bem?”. A ideia surgiu depois que ela ouviu comentários preconceituosos sobre uma pessoa que havia tentado suicídio.

“Inicialmente era para ser um aplicativo mais informativo, para quebrar tabus a respeito do assunto ajudando a identificar comportamentos suicidas. Muitos ainda têm ideias distorcidas sobre o tema por ele não ser muito discutido na mídia”, observa Aline.

Aos poucos foram surgindo novas ideias e ela resolveu pedir à psicóloga Wanessa Lisbôa que supervisionasse o conteúdo, para dar mais segurança e credibilidade ao projeto. Por Aline fazer terapia já alguns anos, algumas das funcionalidades são inspiradas em experiências próprias.

“O Diário de Gratidão, por exemplo, é baseado em uma das escritas terapêuticas que faço, listando todas as coisas boas que aconteceram comigo”, conta Aline. Ela também revela que já teve pensamentos suicidas e conheceu pessoas que tentaram tirar a própria vida.

Devs relatam depressão

Desde que desenvolveu o aplicativo, Aline ouve muitos depoimentos de colegas que passam por problemas psicológicos. A maior parte são mulheres, provavelmente em função do tabu que ainda paira sobre o assunto. Além da depressão, síndrome de burnout, ansiedade e estresse também aparecem com frequência. 

“Muitos não gostam de relatar nem para os gestores ou colegas de equipe porque muitas empresas ainda não têm essa preocupação com o lado humano do funcionário, nem a consciência de que isso pode acontecer com qualquer um”, lamenta Aline. 

O retorno que ela recebe dos usuários tem sido bastante positivo. Muitos mandam mensagem agradecendo e contando como o aplicativo foi importante. Psicólogos também elogiam a iniciativa. As críticas, quando aparecem, são construtivas e servem para entregar uma solução cada vez mais aprimorada. 

Lançado em agosto de 2017, o “Tá tudo bem?” já conta mais de 50 mil downloads e uma média de 13 mil usuários ativos. Além de atendimentos e anotações, a ferramenta permite ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV), no número 118, ou falar com eles por meio de um chat – o app não tem vínculo com o serviço, apenas disponibiliza um canal de contato. 

“Lembrando que o aplicativo em hipótese alguma substitui alguma ajuda médica ou profissional”, faz questão de ressaltar Aline. 

Para que mais pessoas tenham acesso, ela disponibiliza uma API no GitHub.

Autor(a)

Time de redação de conteúdos exclusivos da BrazilJS.
É um time diverso, focado e dedicado a trazer o melhor do mundo da Tecnologia e Desenvolvimento Web com a curadoria BrazilJS.