Quem programa os programadores?

Perguntas circulares iniciam processos reflexivos e, normalmente, levam a conclusões desagradáveis. Vejamos, por exemplo, a clássica “quem vigia os vigilantes?” de Watchmen[1]. Enquanto o picho de protesto acontece, o alvo do protesto – o Comediante – torna os manifestantes seu alvo. Gás lacrimogêneo parece sempre uma boa resposta às perguntas realmente transformativas.

Perguntas como essas não são fáceis, elas tendem a forçar a reflexão. Trata-se da necessidade de encarar o abismo existente em nós e enfrentar abstrações para lidar com uma resposta que não convém pensarmos. Sem dúvidas, o pensar é um exercício de coragem, em qualquer tempo. Pois ocupa-se de uma retirada da posição privilegiada na qual existimos, inserindo-nos em contextos completamente diferentes que rompem com a comodidade da perspectiva habitual.

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A sociologia tomou seu tempo para refletir o que cria estes nós entre os humanos. Quais são os processos que tecem os laços entre os indivíduos?

Gostaria então de tratar estas relações como sistemas sociais. Sistemas que possuem códigos específicos, linguagem própria e programas (objetivos) diferenciados entre eles. Encabeçando este pensamento nos últimos tempos estão os sociólogos Niklas Luhmann[2] e Gottfried Stockinger[3]. Estes sistêmicos propõem – a partir das teorias da cibernética, matemática e comunicação, entre outras – que ao falar de sociedade, fala-se em sistemas sociais.

Sistemas sociais dos quais nossa consciência se acopla para possibilitar a comunicação entre os seres humanos, sem estes sistemas seria impossível qualquer comunicação, a própria linguagem pode ser considerada um sistema no qual a nossa consciência navega neste mar sistêmico. A ciência, economia, direito, religião, técnica, arte, saúde, educação, todos estes seriam sistemas sociais para os quais a nossa consciência se acopla e de lá conseguimos ter algum ponto de vista.

Acontece que estes sistemas sociais são autômatos e usam os indivíduos (e seus corpos) como ferramentas necessárias para sua manutenção (POSTONE[4]) (KURZ[5]). Os indivíduos estão para além do controle destes sistemas. A pequenez do ser humano em relação a eles é espantosa e inassimilável. Quem pode conhecer a totalidade do direito? Ou as infinitas possibilidades da ciência? Vislumbrar a grandeza da arte?

A COISA MAIS MISERICORDIOSA DO MUNDO, PENSO EU, É A INABILIDADE DA MENTE HUMANA EM CORRELACIONAR TODO SEU CONTEÚDO – O CHAMADO DE CTHULHU, H.P. Lovecraft[6].

Só a história pode contar a história destes sistemas. E estamos presos na história deles. A questão é que quanto mais descobrimos suas ranhuras, bugs e protocolos; menos as pessoas parecem querer alterar sua condição de aprisionamento (in)consciente de suas consciências.

Na Terra dos Sonhos – mais especificamente, (n)Um Sonho de mil Gatos-, quando os gatos saem para onde os gatos vão; em busca de saber como deixarem de serem gatos domesticados. A mensageira sonha a liberdade de ter domesticado o homem de novo; sonhar o sonho de mil gatos (de novo); “UM MUNDO EM QUE GATO ALGUM SOFRA COM A CRUELDADE DOS HOMENS. ONDE NENHUM GATO SEJA MORTO POR CAPRICHOS HUMANOS”. – ao comer um rato gordo, o gato que acabara de ouvir (su)a (própria) história de outrora, diz: “EU ADORARIA VER ALGUÉM… PROFETA, REI OU DEUS… CONVENCER MIL GATOS A FAZER A MESMA COISA AO MESMO TEMPO”. – Mas o filhote dorme, e lá caça o homem.[7]

Daqui parto para as formas mais grotescas desta programação perversa que sofremos. Gravadas na nossa consciência como práticas convencionais e “normalizadas”, reproduzindo absurdos, preconceitos, violências e a (auto-)morte do(s) Outro(s).

A perversão destes sistemas que guiam o mundo – e nossas consciências – são integrados e reforçados nas redes informacionais da internet, catalizados pela potência da comunicação. Por isso, se pode assistir um espetáculo de morte criado pelo fascismo social. O machismo, racismo e sexismo impregnados nos sistemas sociais transbordam nas telas, nas redes e na realidade absurda; a qual é enlouquecedor encarar de frente, tal absurdo da domesticação dos homens.

Reflexão é transcender a realidade histórico-sistêmica. Para não ficarmos apenas em termos abstratos, pode-se realizar a transcendência em práticas que colocam à prova as razões do mundo. Para ficar no universo da internet e da programação, podemos observar as práticas dos ativistas do Software Livre, contra a transformação de conhecimento em mercadoria. Nesta linha, Alexandra Elbakyan, cazaquistanesa que criou o Sci-Hub. Recentemente, a prática política de André Staltz ao anunciar o fim da internet. Estas ações pretendem opor-se à lógica de transformação de tudo em mercadoria (capitalismo). Na luta contra machismo, Isabella Silveira, Evelyn Mendes, Aline Bastos, Carolina Pascale são exemplos no ambiente da TI [8]. Ainda, deve-se atentar para as lutas anti-racistas, inclusive na utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação para a propagação de preconceitos e discriminação.

Proponho nestes textos olhar(mos) além do código, por meio da história, pela falta de perspectiva possível, de dentro da catástrofe ou de onde podemos sonhar.

Olhar o sistema é ter a possibilidade de mudá-lo?

Será possível o programador programar-se, novamente? (ou superar o código é destruir a nós mesmos?)

[1]: MOORE, Alan (roteiro); GIBBONS, Dave (arte). WATCHMEN. Edição Definitiva. DC Comics. Editora Panini, 2005.

[2]: LUHMANN, Niklas. Sistemas sociales: Lineamientos para una teoría general. México: Anthropos: Universidad Iberoamericana; Santafé de Bogotá: CEJA, Pontifícia Universidad Javeriana, 1998.

[3]: STOCKINGER, Gottfried. A sociedade da comunicação: o contributo de Niklas Luhmann. Rio de Janeiro: Papel virtual, 2003.

[4]: POSTONE, Moishe. Tempo, trabalho e dominação social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx. São Paulo: Boitempo, 2014.

[5]: KURZ, Robert. Dominação sem sujeito. Disponível em: http://www.obeco-online.org/rkurz86.htm. Acesso em 30 jan 2018.

[6]: LOVECRAFT, Howard Phillips. O chamado de Cthulhu (1928). In: H.P. LOVECRAFT: medo clássico. Ilustrador: Walter Pax. Tradução: Ramon Mapa da Silva. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017.

[7]: GAIMAN, Neil (roteiro); JONES, kelley (desenho). Sandman #18: Um sonho de mil gatos (1990). In: Sandman: Terra dos Sonhos. São Paulo: CONRAD, 2005.

[8]: CANOFRE, Fernanda. Mulheres da TI contam histórias de machismo e como vêm conquistando seu espaço. Sul 21, publicado em 27 ago 2017. Disponível em: https://www.sul21.com.br/jornal/mulheres-da-ti-contam-historias-de-machismo-e-como-vem-conquistando-seu-espaco/.Acesso em 30 jan 2018.


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